Entrevista com Lauro Gonzalez, da Fundação Getúlio Vargas

Superendividamento: o avanço do crédito fácil acende alerta para a educação financeira

 

O acesso ao crédito nunca foi tão simples. Em poucos cliques, pelo celular, é possível contratar empréstimos, parcelar compras ou aumentar o limite do cartão. Mas essa facilidade tem um lado preocupante: o número de famílias que já não conseguem pagar suas dívidas continua crescendo no Brasil.

Conforme dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida. Para tentar sanar o problema, a maioria das pessoas recorre ao rotativo do cartão de crédito, cheque especial e empréstimos de curto prazo, todos com juros muito altos.

Para entender melhor esse cenário de endividamento, conversamos com Lauro Gonzalez, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVCemif) e responsável pela criação do Núcleo de Estudos sobre Superendividamento. Há dois anos, ele e sua equipe desenvolveram o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), um indicador que mede o quanto o endividamento realmente pesa no orçamento das famílias, considerando não apenas o valor das dívidas, mas também a inadimplência e a qualidade do crédito contratado.

Segundo o estudo, o IDC atingiu 0,94 em janeiro de 2026, o maior nível da série histórica iniciada em 2015, revelando que o desconforto financeiro das famílias brasileiras chegou a um patamar recorde. Nesta entrevista, Gonzalez explica as principais causas do superendividamento e aponta caminhos para que o crédito seja um aliado e não um problema.

Promocred: O que caracteriza uma pessoa superendividada? Existe um limite considerado saudável para o comprometimento da renda?
Lauro Gonzalez: O percentual por si só não conta toda a história, mas, em geral, quando mais de 30% da renda mensal está comprometida com dívidas e isso dificulta o pagamento das despesas do dia a dia, já temos um sinal importante de superendividamento. Tudo depende da renda da família, do tipo de dívida e do impacto que ela causa na qualidade de vida. O problema não é apenas dever, mas perder a capacidade de administrar as finanças.
Promocred: O estudo criou o Índice de Desconforto de Crédito (IDC). O que esse indicador mostra de diferente?
Lauro Gonzalez: O IDC procura medir o desconforto financeiro causado pelo crédito. Ele reúne três fatores principais: o comprometimento da renda, a inadimplência e a qualidade do crédito utilizado. Não basta saber quanto as pessoas devem; é preciso entender que tipo de dívida elas têm. Um financiamento imobiliário, por exemplo, ajuda a construir patrimônio. Já recorrer continuamente ao cartão de crédito rotativo, ao cheque especial ou ao crédito pessoal, que têm juros muito elevados, aumenta bastante o risco de superendividamento.
Promocred: O crédito é um vilão?
Lauro Gonzalez: Não. O crédito é uma ferramenta importante para famílias e para a economia. O problema está no uso inadequado e nas modalidades mais caras. Se uma pessoa financia um imóvel e consegue pagar as parcelas com tranquilidade, isso é saudável. Mas quando ela utiliza crédito caro para complementar a renda ou pagar despesas do dia a dia, entra em um ciclo que pode ser difícil de interromper.
Promocred: O celular e as plataformas digitais mudaram nossa relação com o dinheiro?
Lauro Gonzalez: Muito. Hoje o crédito está disponível o tempo todo, dentro do smartphone. Como o dinheiro se tornou digital, muitas vezes a pessoa perde a percepção de quanto está gastando. Fazer um Pix, parcelar uma compra ou contratar um empréstimo leva poucos segundos. Além disso, redes sociais e plataformas digitais estimulam constantemente o consumo, tornando o acesso ao crédito praticamente invisível no cotidiano.
Promocred: As apostas on-line também aparecem como fator de preocupação?
Lauro Gonzalez: Sim. As bets têm contribuído significativamente para o aumento do endividamento das famílias. Elas compartilham a mesma lógica das plataformas digitais: estão sempre disponíveis, oferecem acesso imediato e incentivam o consumo constante. Isso pode levar muitas pessoas a recorrer ao crédito para manter esse comportamento, agravando ainda mais a situação financeira.
Promocred: Programas de renegociação, como o Desenrola, resolvem o problema?
Lauro Gonzalez: Eles são importantes porque oferecem um alívio imediato para quem está endividado. Mas não eliminam as causas do problema. É preciso melhorar a qualidade do crédito disponível, ampliar a educação financeira e estimular ferramentas como o Open Finance, que permite comparar ofertas e encontrar linhas de crédito com juros menores e mais adequadas ao perfil de cada consumidor.
Promocred: Que conselho o senhor deixaria para quem quer usar o crédito de forma mais consciente?
Lauro Gonzalez: O primeiro passo é entender que crédito não deve funcionar como complemento de renda. Antes de contratar qualquer empréstimo, vale pesquisar alternativas, comparar taxas e avaliar se aquela dívida realmente cabe no orçamento. Quanto mais consciente for essa decisão, menor será o risco de transformar uma solução momentânea em um problema de longo prazo.