Pix, compras por aplicativo e jogos online tornaram o consumo mais rápido e menos perceptível, aumentando o risco de endividamento entre os jovens. Esse cenário é agravado pela baixa educação financeira: apenas 26% dos adultos dominam conceitos básicos como juros e inflação, e quase metade dos adolescentes atinge apenas o nível mínimo de proficiência — ou seja, eles conseguem lidar com tarefas simples, mas têm dificuldade em aplicar o conhecimento em decisões reais, como planejar gastos ou entender impactos financeiros.
Diante disso, especialistas apontam que os próprios jogos, especialmente os físicos e educativos, podem ajudar a desenvolver essas habilidades. O programa gratuito “Jogar e Aprender”. do Instituto Brasil Solidário (IBS), utiliza jogos de tabuleiro e cartas para ensinar educação financeira, poupança, empreendedorismo e consumo consciente para crianças e jovens. Os principais jogos incluem os jogos Piquenique, Bons Negócios e a coleção da família PIC$ (jogos lúdicos de negociação, gestão de gastos e planejamento), com versões físicas, além do Piquenique Online.
O programa gratuito Jogar e Aprender, do IBS, oferece formação para professores, materiais pedagógicos e jogos às escolas públicas, por meio de parceria com redes de ensino. As inscrições são contínuas: https://forms.office.com/r/74Y7MziKPN.
Na entrevista a seguir, Luis Salvatore, presidente do Instituto Brasil Solidário, explica esse contexto de endividamento dos jovens e como os jogos podem ajudar na solução do problema.
Promocred — O mundo digital e os jogos influenciam diretamente o aumento do endividamento entre os jovens? Por quê?
Luis Salvatore — Influenciam muito. O crescimento do endividamento dos jovens não é por acaso. Ele acontece porque três coisas mudaram ao mesmo tempo.
Primeiro, o acesso ao sistema financeiro explodiu. Hoje o jovem entra muito cedo no consumo, no crédito e no ambiente digital. Ele já usa Pix, cartão, aplicativos, muitas vezes ainda na adolescência.
Segundo, o dinheiro ficou invisível. Antes, quando você pagava em dinheiro físico, existia uma percepção clara de perda. Hoje, no digital, isso praticamente desaparece. Um clique resolve tudo, e o cérebro não percebe o gasto da mesma forma.
E terceiro, a formação não acompanhou essa velocidade. Ou seja, o Brasil incluiu financeiramente os jovens, mas não preparou eles para lidar com isso.
Quando você junta acesso fácil, consumo imediato — que é muito estimulado inclusive pelos jogos e pelas redes — e pouca educação financeira, o resultado é esse aumento do endividamento.
Promocred — Por que os jovens são mais vulneráveis nesse ambiente digital e gamificado?
Luis Salvatore — Porque eles já estão tomando decisões financeiras antes de estarem preparados para isso. O jovem consome, usa crédito, toma decisão — mas ainda não tem repertório para avaliar risco, juros, prazo e consequência. E no ambiente digital isso se intensifica muito.
Os jogos, por exemplo, trabalham com recompensa imediata, progressão rápida, estímulo constante. Isso molda comportamento. A lógica é: faço agora, ganho agora.
Quando essa lógica vai para o consumo, ela vira impulsividade. Além disso, existe a pressão social: o jovem quer pertencer, quer acompanhar o grupo, quer ter acesso ao que todo mundo tem. E isso tudo, no digital, acontece o tempo inteiro.
Então não é só uma questão de renda, é de comportamento também. Existe uma falta de preparo para decidir em um ambiente que incentiva decisões rápidas.
Promocred — Diante disso, qual deve ser o verdadeiro objetivo da educação financeira hoje?
Luis Salvatore — Educação financeira não é sobre enriquecer, é sobre evitar erro, planejar o futuro e honrar compromissos.
No contexto atual, ela precisa ensinar o jovem a lidar com esse mundo imediato. O jovem precisa desenvolver a capacidade de entender o valor do dinheiro mesmo quando ele é digital, fazer escolhas conscientes, planejar antes de consumir, e, principalmente, adiar decisões impulsivas.
Se a gente fosse resumir, é ensinar o jovem a jogar melhor o “jogo da vida real”. Porque hoje ele já está jogando, só que sem conhecer as regras.
Promocred — Os jogos podem ajudar nesse processo de aprendizagem? Como?
Luis Salvatore — Podem e muito. Os jogos são uma das ferramentas mais poderosas que a gente tem hoje para educação financeira, justamente porque dialogam com a realidade do jovem.
Quando o jovem joga, ele toma decisão o tempo todo. Ele administra recursos, escolhe caminhos, lida com risco, ganha e perde. A diferença é que, no jogo, ele pode errar sem sofrer as consequências reais, e isso é fundamental.
Quando a gente traz jogos para a educação financeira — jogos físicos, coletivos, com tomada de decisão — o jovem passa a entender consequência, perceber limite e refletir antes de agir.
Ele vive a experiência, e isso muda comportamento. Uma palestra informa, mas um jogo, a prática, transforma.
Promocred — Como preparar os jovens para esse mundo financeiro digital sem afastá-los da realidade deles?
Luis Salvatore — O primeiro ponto é entender que não adianta proibir nem demonizar o digital. O jovem já está lá. Então a gente precisa preparar dentro da realidade dele.
Isso significa trazer o tema para a escola de forma prática, usando situações que fazem parte do dia a dia dele, inclusive jogos, simulações, decisões reais.
Não adianta falar só de conceito. Tem que trabalhar comportamento. É ajudar o jovem a perceber o que está por trás das decisões: o impulso, a pressão social, a recompensa imediata.
Porque o problema não é o acesso ao crédito ou ao digital, é o comportamento deles diante disso.
Promocred — O que muda quando o jovem aprende dessa forma mais prática e conectada com o universo dele?
Luis Salvatore — Muda tudo. Quando o jovem vivencia — seja em jogo, simulação ou projeto — ele começa a entender como as escolhas impactam o resultado. Ele percebe limite, entende consequência e começa a pensar antes de agir.
A gente observa, na prática, que ocorre mais consciência antes de consumir, mais organização, mais diálogo dentro de casa, mais capacidade de planejamento. Ele começa a transferir o que aprendeu no jogo para a vida real. E isso é o mais importante.
Promocred — Qual é o papel da escola nesse novo cenário digital e financeiro?
Luis Salvatore — A escola é central. É o único espaço com escala para formar esse comportamento de forma consistente. Ela precisa ir além do conteúdo tradicional e trabalhar habilidades para a vida. E isso inclui educação financeira, tomada de decisão, análise de risco — tudo conectado com o mundo real do aluno.
Em um país com mais de 80 milhões de pessoas endividadas, não dá mais para tratar isso como algo secundário. Porque, no fim, o problema do endividamento não começa no banco. Ele começa na forma como o jovem aprende — ou não aprende — a lidar com as próprias escolhas.
Um caminho a seguir
Vivendo entre telas, jogos e decisões rápidas, os jovens já estão inseridos no sistema financeiro, mas ainda estão aprendendo suas regras. Como aponta Luis Salvatore, o desafio não é reduzir o acesso, mas transformar comportamento.
E talvez a chave esteja justamente onde muitos não esperam: nos jogos, nas experiências e nas linguagens que fazem sentido para essa geração.