O poder da cooperação

Veja como as fortes chuvas em Juiz de Fora (MG) mobilizaram uma cidade e um país, gerando força, solidariedade e união

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora (MG) nas últimas semanas provocaram mortes, deslizamentos, alagamentos e perdas materiais em diversos bairros. A dor se espalhou pela cidade, ganhou repercussão nacional e ecoou na imprensa internacional. Mas, na mesma intensidade da tempestade, surgiu uma força coletiva: a cooperação do povo juiz-forano e de tantos brasileiros que se mobilizaram em solidariedade.

Desde os primeiros alertas, a resposta foi imediata. Moradores transformaram prédios, salões, academias e garagens em pontos de apoio. No bairro Santa Rita (região leste), um salão de beleza virou centro de arrecadação. No Grajaú (região leste), vizinhos organizaram o envio de água, roupas e alimentos. No bairro Paineiras (região central), na Rua Engenheiro de Andrade, voluntários colocaram botas, enfrentaram a lama e começaram a limpar casas antes mesmo da chegada do poder público. Jovens passaram o domingo carregando fardos de água e ajudando na retirada de móveis destruídos. Motoboys fizeram entregas gratuitas porque queriam contribuir.

           Imagens do bairro Paineiras mostram engajamento da população para soerguer a cidade

A tragédia não foi isolada. Para além das periferias, bairros como Costa Carvalho (região Sudeste) e rua do Carmelo (Bairro Paineiras, região central) registraram perdas irreparáveis, com mortes de famílias inteiras, aprofundando o luto coletivo. Na rua Carmelo uma família inteira morreu: duas crianças, a mãe, o padrasto e uma tia. “Não tem ninguém que não tenha vivido isso ou que não conheça alguém que perdeu algo”, relata a jornalista Marise Baesso, da Câmara Municipal, que acompanha a situação de perto. Para ela, o que mais impressiona é que a mobilização não ficou restrita a um bairro: “A cidade inteira está comprometida”.

Placa na rua do Carmelo fala de meditação diária, do silêncio e da mortificação

Marise reforça que o espírito solidário vai além das doações. Ela viu famílias acolhendo parentes desalojados, jovens ajudando desconhecidos e pessoas que, mesmo depois de perder quase tudo, ainda encontravam forças para cuidar de outros. Um dos relatos que mais a marcou foi o de uma mulher que perdeu 17 familiares e, ainda assim, precisa seguir firme para cuidar de cinco sobrinhos que ficaram sem mãe. Histórias que revelam dor profunda, mas também resiliência.

Instituições também se organizaram rapidamente. A Câmara Municipal abriu campanha de arrecadação no Palácio Barbosa Lima. A Universidade Federal de Juiz de Fora mobilizou estudantes e criou pontos de coleta. A Arquidiocese de Juiz de Fora organizou arrecadações nas paróquias. A Ceasa Minas enviou 20 toneladas de alimentos. O Mesa Brasil Sesc, em parceria com empresas locais, estruturou pontos de coleta que arrecadaram toneladas de donativos. Sindicatos, campanhas online e até a organização internacional World Central Kitchen contribuíram com apoio e refeições.

A Prefeitura de Juiz de Fora abriu um PIX oficial para doações às vítimas das chuvas, que já arrecadou mais de R$ 1 milhão para assistência emergencial e apoio às famílias afetadas. Outras campanhas de solidariedade por PIX também foram abertas por organizações voluntárias e grupos de apoio, para ampliar a ajuda direta a quem perdeu suas casas e bens em Juiz de Fora e nas cidades vizinhas.

As escolas públicas também se tornaram parte fundamental dessa rede de apoio. Diversas unidades passaram a funcionar como abrigos para famílias que perderam suas casas. Diretores, professores e funcionários se revezam na organização dos espaços, na recepção das pessoas e na distribuição de donativos. A Secretaria de Educação destacou que as escolas não são apenas espaços físicos, mas parte ativa da rede de cooperação em momentos de crise. Na Escola Municipal Henrique José de Souza, na zona norte, a equipe trabalha dia e noite para acolher quem precisa, e as doações chegam continuamente. No bairro Grajaú, a Escola Municipal Henrique Hargreaves realiza o cadastramento para a concessão de cestas básicas, enquanto a Polícia Civil emite documentos de identidade para quem perdeu tudo.

Cadastramento de famílias na escola Henrique Hargreaves e doação de brinquedos para as crianças abrigadas na escola Henrique José de Souza

Para a professora de Geografia Maria Imaculada da Silva, com mais de 30 anos de atuação na rede pública, a tragédia também revela problemas históricos da cidade. Ela sempre trabalhou com os alunos temas como ocupação irregular, construções em morros e a importância do planejamento urbano. Segundo a professora, o crescimento desordenado, com casas erguidas em encostas sem estrutura adequada e sem fiscalização rigorosa, contribui diretamente para deslizamentos em períodos de chuva intensa. É um problema acumulado ao longo dos anos, que exige responsabilidade coletiva e políticas públicas mais eficazes.

Ao mesmo tempo, ela faz questão de destacar a identidade solidária do povo juiz-forano. Academias arrecadaram caminhões de mantimentos, supermercados tiveram prateleiras de água esvaziadas pela grande procura para doação, prefeitos de cidades vizinhas enviaram ajuda e bombeiros de regiões como Ponte Nova reforçaram o atendimento. A dor foi imensa, mas a resposta da sociedade também.

Para Marise Baesso, o desafio agora é manter esse espírito vivo. “Hoje faz sol e parece que a cidade volta ao normal, mas a gente espera que esse espírito de cooperação continue”.

A tragédia deixa marcas profundas na cidade, mas também revela uma identidade coletiva. Em meio à dor, Juiz de Fora e todo o Brasil que se mobilizou mostraram que a cooperação é um de seus maiores patrimônios. Afinal, cooperar, mais do que ajudar em momentos de crise, é construir, juntos, caminhos mais seguros, solidários e sustentáveis para o futuro.

 

Fotos: Marise Baesso e arquivo da Escola Municipal Henrique José de Souza